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O apagão

  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Minha história começa um pouco diferente da maioria. Mas também se parece com a história de tantas outras pessoas… E foi isso que sempre me fez ter vontade de falar a respeito. Porque o que a gente passa na nossa vida, não é só a gente que passa.


Rafa e eu, no começo do namoro. - 2004



E às vezes o sentido de tanta coisa pode estar no fato de poder ajudar alguém numa situação parecida. Ajuda essa que nem sempre traz resposta pro problema, mas traz companhia.

Um “eu entendo”, um “tamo junto” — que caem tão bem quando a gente se sente perdido no meio do caos.


Quem nunca sentiu um respirar mais aliviado depois de contar uma situação pra alguém? Às vezes a gente tá lá, vivendo o problema há tantos dias seguidos, que quando fala com alguém de fora percebe que talvez ele nem seja tão grande assim.


Então pode ser que o propósito de viver certas coisas esteja na mão que você dá pra outra pessoa, pra caminharem juntas através de uma conversa simples, uma troca de palavras. Às vezes o que a gente precisa é só de um “aqui também é assim”.


Pois bem. Eu sempre imagino o começo da minha história com: “eu engravidei aos 16 anos”. Mas toda vez que escrevo isso parece estranho, e eu apago.

Foram tantas vezes clicando o delete que me irritei. E comecei a me perguntar: por que me soa tão esquisito começar assim, se a história que quero contar é exatamente essa? De como foi engravidar tão cedo?

Aí me deu um estalo: minha história também é essa — mas não é só essa. E nem começa aí.


Antes de engravidar aos 16 eu já era eu. Já existia. Eu tinha minhas manias, meus pensamentos, meus valores, meus costumes.

Não estava pronta — nem perto — mas já existia em mim um alguém. Esse alguém que deu origem a todos os outros alguéns que vieram depois. Porque quem a gente é não anula quem a gente já foi um dia.

Sempre fica alguma coisinha registrada. Nem que seja o exemplo do que não ser mais.

É isso que me incomoda: como a gravidez na adolescência foi o apagão do que veio antes.

O apagão que eu tive de mim mesma.


Eu, grávida. - 2018



Tudo que eu conhecia em mim virou um borrão distante porque eu não sabia mais como me enxergar.

Tudo que eu achava sobre mim ficou num eco vazio.

Hoje eu consigo elaborar, organizar as palavras, mas na época eu só vivi. Liguei o modo: “tem um bebê dentro de mim" e foi isso.


Comecei a ler todas as revistas de gravidez que as pessoas podiam emprestar, comecei a assistir aos canais que falavam sobre maternidade, parto, doenças, casamento.

Comecei a pensar no que eu poderia planejar pra fazer minha filha ser feliz.


Chorei muito com medo de não ser uma boa mãe. Chorei ao imaginar que ela veria a minha mãe como mãe dela porque eu havia cometido o terrível erro de engravidar na adolescência.

Chorei porque achei que eu morreria no parto. Depois chorei mais ainda porque imaginei que ela morreria no parto.

Chorei quando recebi um convite de festa de 15 anos e percebi que não havia tido uma festa de 15 e que agora também não teria uma formatura. Nem uma festa de 18 anos. Nem ganharia uma habilitação de presente. Muito menos me formaria em desenho de moda.


Não mais teria a chance de fazer intercâmbio com o salário de atendente de fast-food (porque sim, eu imaginava que conseguiria um emprego no McDonald’s e com o salário pagaria uma faculdade, um apê dividido com amigas e que magicamente iria pra Itália viver o sonho de ser uma estilista famosa — adolescente tem uma criatividade fascinante né!?).

Eu vi tudo o que eu imaginava se tornar ainda mais impossível porque eu havia cometido minha maior negligência da vida: engravidar antes da hora. - contém ironia


Eu me senti a pior pessoa do mundo. A pior mãe porque antes mesmo de querer ser mãe não pensei nas consequências pra vida daquela criança que iria nascer.

A pior filha, porque minha mãe sempre alertava e eu — mesmo assim — fui burra.

A pior filha pro meu pai, que, de tão assustado, entrou num silêncio tão profundo que parecia que ele tinha sumido.



Rafa e eu, grávidos. - 2005




Naquele momento, a gravidez não foi só um acontecimento. Aquilo era quase como se fosse o resultado de uma conta de matemática, como se toda minha vida compusesse uma única equação que resultava ali no que seria a determinação do meu futuro, de quem eu era e seria dali pra frente.


Falavam da gravidez precoce como morte dos sonhos. Água e óleo.

Eu ouvia as pessoas falando de outras meninas que engravidaram: “acabou a vida dela”, “que burra”, “boa coisa a menina não deve ser”, “coitado do rapaz, se lascou”.

E depois tive o desprazer de ouvir isso sobre mim também.


Sou muito grata por isso não ter atrapalhado o minha relação com a gravidez naquele momento.


Eu me apaixonei pelo meu corpo naquela mudança de um jeito tão gostoso.

E me apaixonei pelo bebê desde o primeiro momento.

De verdade.


Eu sentia pena daquele bebê porque eu era a mãe dele. E coitado.

Eu precisava cuidar dele muito bem pra ele não sofrer os horrores de ser filho de uma adolescente tão despreparada.

Eu amava aquela criança tanto. E mais ainda porque ela havia sido vítima do infortúnio de ser condenada a ser minha filha.

Então decidi ser a melhor mãe que eu pudesse.



Nick e eu, em seu primeiro banho de chuveiro. - 2006



E isso consistia em respirar a maternidade.


E fazer o possível e o impossível pra ser a mãe, aquela mãe, a senhora mãe.

A melhor mãe do mundo.

Eu ia amamentar, e trocar e não dormir. Eu ia pesquisar, estar sempre presente e não vacilar.

Não ia deixar nada nem ninguém fazer qualquer mal pra ela.

Ia estar disponível a todo tempo, prever tudo, organizar tudo.

Eu ia superar minhas falhas, ia me desconstruir criança e me remontar mãe.


E me perdi de mim no processo.


Eu deixei de me ver como a Juliana que eu conhecia e passei a me ver como uma personagem que precisava estar pronta.

Eu ainda era eu, óbvio. Mas não sentia mais o mesmo prazer nas coisas habituais.

Me lembrava sempre que eu já não podia mais um monte de coisa.


Não podia querer nada que não tivesse a ver com a mãe que eu era.

É engraçado falar assim né, porque parece até algo que acontece no campo racional do cérebro.

Mas não, isso acontece ali de forma sutil, por debaixo dos panos, sabe?


Eu sentia vontade de chorar a cada convite de festa de amigas, a cada convite de formatura.

A cada visita que as amigas não-mães-na-adolescência faziam para contar suas experiências de não-mães-na-adolescência.

As viagens, os namoros, a faculdade, o trabalho, o futuro.


E eu nunca vi isso como culpa do meu bebê. Eu não via culpa em nada nem ninguém.

Eu só via mundos paralelos.


Hoje, com 37, digo com orgulho que pude reconstruir minhas percepções.

Ainda converso comigo. Resgatei partes minhas que haviam se perdido no meio de tanta busca por ticar um item na lista de padrões perfeitos.


Sigo me revelando.

Sigo tentando confiar no meu senso de direção.

Confio em mim como mãe, sempre aposto na minha intuição, mas sinto a dor ansiosa que o medo de errar causa.

Mesmo sabendo que não existe receita pra vida, meu modus operandi ainda age como se eu fosse ser a causadora de todos os males na vida de quem eu mais amo no mundo.


Mas após todo esse tempo, o que considero um presente da vida foi descobrir que nunca perdi minha essência — nem mesmo quando me sentia perdida no meio do caos.


A gente não deixa de ser quem é: isso é nossa digital, gravada dentro da gente.

E o jeito como cada um enxerga e transforma as coisas é único.

É o seu jeitinho de existir no mundo.


Nick e eu, 20 anos depois. - 2025

 
 
 

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