Tudo são primeiras vezes
- Juliana Cremonine
- 18 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Era uma (das) vez(es), uma mãe e uma filha discutindo sobre alguma coisa.
Pode ser sobre tarefas, sobre estudo, sobre decisões… Não faz diferença. Numa família onde o diálogo é importante, as discussões com adolescentes são um fato que vai acontecer bastante.
Estávamos lá, falando enfaticamente sobre alguma decisão da vida, e ela soltou a seguinte frase: “desculpa mãe, é a primeira vez que vivo isso”.
Numa fração de segundos, eu senti uma dorzinha no peito, sabe? Realmente, é a primeira vez que ela vive essa e um monte de outras coisas. E essa transição da adolescência pra vida adulta é mesmo muito doida e doída. Vem cheia de duvida e medo. Cheia de decisões que parecem ser as mais importantes o tempo todo…
Será que eu tinha que ter as respostas? Será que não devia fazer tantas perguntas? Sabendo que é tão difícil viver essa fase, será que eu devia fazer algo diferente?

Eu respondi pra ela: “Desculpa, também. Eu também tô vivendo isso pela primeira vez”
A gente tende a acreditar que a partir do momento que temos filhos teremos todas as respostas.
Só que as respostas que temos não são pras perguntas que surgem na vida deles.
Porque, quando descobrimos as respostas, as perguntas mudam! E a gente vai passar pela vida vivendo e aprendendo algo novo até o final.
Quando minha filha completou 16 anos, isso foi um marco pra mim. Ali começava uma fase completamente nova pra nós duas. Quando eu fiz 16, eu engravidei. E a partir dali vivi uma adolescência diferente da que ela viveria.
Eu nunca soube bem como ajudá-la nesse período. Eu não fiz 16, 17, 18 e fui curtir a breve sensação de liberdade que a galera tem nesse momento. Eu tava ensinando alguém a andar, falar, fazer xixi no vaso. Já tinha vivido algumas viroses e noites em claro vendo temperatura e tendo medo de algo ruim acontecer.
Eu não tava estudando pro vestibular. Eu tava amamentando um bebê que não aceitava mamadeira de jeito nenhum. Nem copinho. Nem outro leite.
Eu achava tão bonitinho ela brava porque discutiu com a melhor amiga… Me era até um acalanto ver que ao invés de passar a noite em claro, ansiosa porque a febre não abaixa e a fralda tá acabando, ela tava escrevendo no twitter o quanto ela tava brava porque o namorado da Taylor Swift traiu ela, de novo.
Eu nunca soube se tava cobrando de menos ou se tava exigindo demais. Ficava nesse eterno estica e puxa, com medo de faltar alguma coisa em algum lado e não saber disso porque eu nunca soube o que precisava ter naquele momento. Porque eu não vivi aquela realidade.
Quando a gente vive momentos que nos desafiam, tendemos a ver o desafio dos outros como se fosse mais tranquilo de viver. O tal do “eu escolheria ter sua vida”.
Com os filhos não é diferente. A gente compara o tempo todo a vida que oferecemos pra eles com a vida que a gente viveu. E aquilo que a gente não sente na pele sempre parece fácil de encontrar solução. Mas eu sempre tento me lembrar que não existe sistema métrico para o sofrimento. Cada um vive seus próprios desafios, vive suas próprias limitações e sofre por aquilo que lhe agride a crença.
O sofrer é uma emoção. Não é um sintoma para determinados fatos. Todo mundo vai sofrer em algum momento. Porque é recurso do sistema emocional. Faz parte das oscilações da vida.
Mesmo que você tivesse todo dinheiro do mundo, a saúde de ferro e a paz de Budha, um dia ia entrar uma formiguinha no vão da sua tanga e você ia ficar puto reclamando que a vida tá uma desgraça.
O ser humano vive a partir de sua perspectiva. E o sofrer faz parte da gama de emoções que compõem sua capacidade de ser humano.
Quando se torna possível enxergar através desse ponto, fica mais fácil não comparar os sofrimentos, e dar atenção para aquilo que o outro sente. Você não enxerga mais o que motiva aquele sentimento, você olha pra dor que aquilo causa. Isso é o que dá base para sustentar a empatia.
E a empatia precisa ser praticada de você pra si mesmo também. Porque você também não sabe tudo. Não entende tudo. Não prevê tudo. E ninguém espera por isso. Pelo menos, ninguém que tenha bom senso. E se alguém que não tiver bom senso estiver te cobrando isso tudo, você sempre pode ignorar. Pra quê dar palco pra quem é sem noção?
No mais, lembre-se: Essa é a primeira vez que você vive o dia de hoje. Com a idade que você tem. Com o conhecimento que acumulou até aqui.
Seja gentil.










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