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A pior parte

  • Foto do escritor: Juliana Cremonine
    Juliana Cremonine
  • 18 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

A pior parte de ser mãe não é o enjôo matinal. 

Não é o inchaço, nem as mudanças constantes de humor que irrita a gente tanto quanto irrita quem convive com a gente.

Também não é a dor do parto.


A pior parte da maternidade não são as noites mal dormidas e as tantas vezes de privação de sono, embora isso seja realmente enlouquecedor. Nem é o xixi descontrolado. Nem a platéia pra te ver fazer o número 2.


Tem a fralda, a cólica, a virose, o dente nascendo. Tem também os conselhos não solicitados, os questionamentos de quem tem nada a ver com nada, e os olhares tortos nos locais menos esperados sobre qualquer coisa que que você esteja fazendo com seus filhos.


Por mais inacreditável que pareça, essas não são as piores partes.


A pior parte, a difícil mesmo, a que não tem nenhum “vá a merda”que resolva, é ter que entender que seu filho é um alguém completo. Não tem a ver só com o aceitar que seu filho é uma pessoa a parte de você. É sobre conseguir administrar isso. 


Enquanto eles são pequenos isso é moleza, sabe!? Porque logo no começo eles não são um alguém independente. São totalmente dependentes do seu colo, do seu cheiro, do calor da sua pele. Eles precisam sentir sua presença no ambiente para que tudo funcione bem. É seu olhar que procuram na hora do medo ou da dor, ou do cocô que incomoda na fralda. 


É sua mão que tateiam quando estão aprendendo a dar os primeiros passos, da mesma forma que acontece quando estão aprendendo a andar de bicicleta e imploram pra que você não solte a mão do banco, embora por dentro estejam torcendo pra que isso aconteça, porque a intuição deles diz que só vão conseguir aprender se você deixar que tentem sozinhos. Mas naturalmente. Disfarçadamente. Sem que eles percebam. Porque a coragem também é difícil de encontrar na hora do medo. 


E esse hábito de estender a mão é uma mania insistente. Você estende os braços automaticamente quando eles tropeçam, quando eles pulam de algum lugar, quando eles choram, quando eles gritam… 


E eles vão crescendo e você continua estendendo a mão quando eles precisam sair correndo pra escola e você ajuda a organizar a mochila, quando eles tem que fazer a tarefa da escola e você traz as coisas que faltam da papelaria, mesmo sem ele pedir, quando você separa a roupa em cima da cama enquanto eles estão no banho…


E quanto mais o tempo passa, mais esse vício se mostra intrínseco ao seu jeito de viver, é tipo roer a unha, sabe? Você nem vê que tá fazendo.

Aí você já dá o dinheiro do passeio que está sendo programado com os amigos, mesmo sem seu filho pedir. Você toma a frente quando tem um problema na escola e resolve do seu jeito, sempre prezando pelo melhor. Você decide quando, como e porquê seu filho vai dar os próximos passos. 


Só que ele já ta terminando o colégio. Na verdade ele já tem 18 e tem uma dificuldade: tomar decisões. Porque a coragem é mesmo uma coisa difícil de conseguir na hora do medo. E ela só vem quando a gente exercita a auto confiança por um bom tempo. E o melhor jeito é tomando nossas pequenas decisões ao longo da vida. Da infância, da adolescência… Quando temos conflitos e vamos tentando resolver do jeito que faz sentido pra gente. E errando. E pensando. E tentando concertar o que ficou pior. 


Mas… o que fazer quando a oportunidade de aprender botando a mão na massa vira uma aula teórica? A ciência diz que a gente aprende melhor quando estamos executando a lição. Só de ouvir e assistir ao professor não é efetivo de verdade. Porque acaba não fazendo sentido.


Mas não é fácil ser o professor. Porque isso consiste em assistir ao errar. E o errar na vida causa sofrimento. E que mãe consegue assistir ao filho sofrer calada?


A parte mais difícil é dizer pra você mesmo “Isso não é grave” e acreditar no processo. É assistir à seu filho triste com alguma situação e precisar ser mais firme sem dar todas as respostas porque essas respostas são as suas e não as dele. 

Porque as perguntas que a gente faz na vida podem até ser as mesmas. Mas as respostas podem variar horrores! Não tem verdade absoluta, receita de sucesso, nem nada parecido que possa guiar ele através de um atalho mágico com a solução de todos os problemas.


A parte mais difícil de ser mãe não é a parte que a gente trabalha incansavelmente. 

A parte mais difícil de ser mãe é quando a gente senta na platéia e assiste ao maior amor da sua vida tomar as rédeas e viver a seu próprio modo.


É a parte mais difícil. Mas é também a parte mais bonita. É quando você assiste ao vôo livre e o vê voltar vez ou outra pra dividir com você suas descobertas. Não porque precisa, mas porque sente que pode. E quer.

 
 
 

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